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Showing posts from September, 2010

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti   Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.   E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.   A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.   A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não ...

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Desejo primeiro

Desejo primeiro que você ame,  E que amando, também seja amado.  E que se não for, seja breve em esquecer.  E que esquecendo, não guarde mágoa.  Desejo, pois, que não seja assim,  Mas se for, saiba ser sem desesperar.  Desejo também que tenha amigos,  Que mesmo maus e inconseqüentes,  Sejam corajosos e fiéis,  E que pelo menos num deles  Você possa confiar sem duvidar.  E porque a vida é assim,  Desejo ainda que você tenha inimigos.  Nem muitos, nem poucos,  Mas na medida exata para que, algumas vezes,  Você se interpele a respeito  De suas próprias certezas.  E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,  Para que você não se sinta demasiado seguro.  Desejo depois que você seja útil,  Mas não insubstituível.  E que nos maus momentos,  Quando não restar mais nada,  Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.  Desejo ainda que você seja tolerante,  Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,  Mas com os que erram muito e irremediavelmente,  E que fazendo bom uso d...

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nasc...